quarta-feira, abril 27, 2005

Exsudar

Do fundo da noite, do resto da vida, da memória esquecida, dos sentidos adormecidos ao longo de tudo, eu chamo-vos por nome, criaturas de devassidão e de perversões sem limites. É a vós, que sentis a carne em chamas a toda a altura das vossas vidas, que ardeis no vosso próprio desejo deixado por consumir que eu estendo a mão e vos peço que me acompanhem eternamente. E se, no fim da viagem infinita, se acobardarem, poderão pelo menos dizer que tentaram um dia ser mais humanos que a humanidade vos permite.

Estendam a mão para o espelho, agarrem o vosso reflexo pelo colarinho e espanquem a imagem que projectam na mente de outros. Será que vocês existem? Será que têm uma presença real? "Não! Mil vezes não!" "O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe" mas não sabe de certeza que quem sente em si a destruição do fogo do desejo por consumar quer apenas uma satisfação momentânea, deixando de lado todas as filosofias, todas as crenças e as verdades absolutas.

Mesmo que cortes cerce a identificação daquilo que queres, logo sentirás na parte de trás da tua nuca uma tensão muscular que pede atenção e que não consegues agora, pobre coitado, ignorar. Toma da taça invertida a bebida nectarina, pura e estranhamente saborosa e poderás por fim descansar a tua cabeça - se no dia seguinte a tensão regressar, saberás pelo menos que a recuperação está a caminho e que as dores que sentes agora mereceram existir.

E tu, cujos longos fulvos cabelos se agitam altivamente no espaço abanados pelo vento vazio que ensombra a existência cheia de um nada que te devora a cada dia que passa, qual alienação-doença, entrega o teu ser a quem quiser tomar de ti o dom que encerras e a quem quiser despertar em ti a malevolência fugaz e tão deliciosamente bela que te fará uivar longamente sob uma Lua esbranquiçada como o prazer que provocas.

A mim! Deixai que vos escorra pelos poros da vossa pele saturada aquilo que longamente escondestes!